Caríssima,
Sabe a diferença entre o restaurante oriental, pro seu similar ocidental?
Pois bem...
No restaurante ocidental o sujeito entra, senta, abre o menu, escolhe o que quer, consome, paga a conta e vai embora. O saudoso Saul Galvão dizia que o cardápio é o contrato entre chef e cliente, algo assim.
No oriental é diferente. Quem escolhe o que você vai comer é o cozinheiro, que recepciona o freguês como se fosse nobre visita; para ele, é honra máxima receber alguém para alimentar. Pelo menos nos lugares mais sérios é assim que funciona.
Pro cozinheiro oriental, a comida é sagrada, orgânica. O trabalho dele é indissociável de sua vida pessoal. Tudo é uma coisa só.
Já na tal da restauração paulistana...
Puta cenário deprimente, onde ~chefs~ se preocupam mais com sua patética imagem midiática, ou com o inflado ego, ou com qualquer outra coisa que não seja receber o freguês, com comida gostosa, confortável e quentinha.
Pouquíssima coisa se salva no risível cenário dos novos endereços ~franco-italianos~ do cada vez mais caído ~pólo gastronômico~ dos Jardins sem flores. Maior prova é que a maioria dos lugares está bem caído, falido ou simplesmente fechado. Eu mesmo não tenho a menor curiosidade em provar o mais recente matriccianna meia boca da cidade. Não achei meu estômago no lixo e a saúde já não é mais a mesma. Não é porquê o tempo não foi nada gentil comigo que me maltratarei dessa maneira. Existem formas mais divertidas de me acabar, nesses dias que restam à esse obeso mórbido diabético sedentário hiper-tenso e cardíaco, que vos escreve.
Outra coisa, tenho essa mania besta de escrever. Não que ache minha opinião importante, sei me colocar em meu lugar e tenho plena consciência da insignificância humana. Mas a escrita é um tipo de terapia que sigo. Me divirto com isso, inclusive.
Escrever é o adiamento do suicídio.
E comer/beber bem hoje é o que me dá mais prazer. É como se fosse um flash de felicidade, no meio do tédio da minha existência mediana.
Daí a revolta quando encontro um(a) profissional que se importa mais, por exemplo, em tirar fotinho de suas viagens, que com seu serviço. E, por tantas vezes, escrevi sobre isso, entre outras coisas.
Acontece que, por aqui, vaidosos nada orientais confundem opinião sobre seu ~trabalho~ com ofensa pessoal e isso tem me dado no saco, cada vez mais. Minha cota de paciência com esse tipo de gente já se esgotou, respeitosamente.
E daí vem a falta de posts. Continuo escrevendo todo dia, mas só publicarei quando achar algo realmente relevante.
O que é o caso de hoje.
Acompanho seu trabalho desde a abertura do Arturito. Aliás, literalmente, já que, se não me falha a memória, fui o primeiro cliente a entrar em sua casa, no primeiro dia de funcionamento comercial.
No começo tinha várias reservas, mas depois passei a gostar bastante. Já escrevi sobre isso, aqui mesmo, nesse modesto balcão virtual. Não se preocupe, não serei redundante.
A real razão pela qual escrevo essa, é pra lhe dizer que considero hoje o Arturito como o restaurante mais completo da cidade.
Desnecessário entrar em detalhes sobre os produtos, mas fato é que do couvert ao café, passando pelas bebidas e (finalmente) serviço, tudo está no auge.
E com preços acessíveis. Quem diria que o Arturito se tornaria um dos restaurantes com o melhor custo-benefício da cidade?
Nesses tempos de crise, é preciso saber se reinventar. Coisa que você fez com excepcional maestria.
A restauração paulistana, tal como é hoje, está com os dias contados. No meu ponto de vista, não tem como a crise não piorar, infelizmente. Mas o Arturito é exemplo de solução, a ser seguido.
Essa carta não tem sequer um porém. E, por isso, pensei em envia-la particularmente, pra ~patrulha~ não me encher, chamar de puxa-saco, essas coisas...
Mas cheguei à conclusão de que faço questão olímpica de dividir minha opinião com os poucos leitores que me sobraram. Como já disse, acho essa carta relevante, daí a publicação.
Sei que trabalha há mais de vinte anos na área, e acompanho agora, com certa emoção, confesso, o crescimento de sua linda filha entre a cozinha e o salão do restaurante.
Paola, você é a exceção que confirma a regra que te contei no começo dessa carta.
Você e seu trabalho são um só.
Paola é Arturito e Arturito é Paola.
Sagrado, orgânico.
Se espirrar, saúde!
julio
p.s. - Rola tirar do set list aquela musiquinha da Vanessa da Mata com Ben Harper?